Séries Temáticas Anvisa    -  Cosméticos          Volume 1

 

 

AVALIAÇÃO DE ESTABILIDADE DE

 

 PRODUTOS COSMÉTICOS

 

 

 

 1.  INTRODUÇÃO

 

Com a finalidade de atender às necessidades de mercado e proteger a saúde da população,

a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, por meio da Gerência Geral de Cosméticos, coordenou

um grupo especial de trabalho constituído por técnicos da própria Gerência Geral, da Gerência Geral 

de Laboratórios de Saúde Pública, representantes da comunidade acadêmica, do setor produtivo e 

dos profissionais da área, para elaboração deste Guia, cujo objetivo  é fornecer subsídios e diretrizes 

para realização dos estudos de estabilidade de produtos cosméticos.

 

De acordo com a definição conferida pela legislação vigente, Cosméticos, Produtos de Higiene e 

Perfumes  “são preparações constituídas por substâncias naturais ou sintéticas, de uso externo

capilar, unhas, lábios, órgãos genitais externos, dentes e membranas mucosas da cavidade oral, com 

o objetivo exclusivo ou principal de limpá-los, perfumá-los, alterar sua aparência  e ou corrigir odores 

corporais  e ou protegê-los ou  mantê-los em bom estado”. 

 

Com o objetivo de facilitar a leitura deste Guia, a expressão “Produtos de Higiene Pessoal, 

Cosméticos e Perfumes” será substituída pela expressão “produtos cosméticos” abrangendo assim, 

toda a classe designada anteriormente.

 

Cabe à empresa detentora a responsabilidade de avaliar a estabilidade de seus produtos, antes de 

disponibilizá-los ao consumo, requisito fundamental à qualidade e à segurança dos mesmos.

Produtos expostos ao consumo e que apresentem problemas de estabilidade organoléptica, 

físico-química  e ou microbiológica, além de descumprirem os requisitos técnicos de qualidade podem, 

ainda, colocar em risco a saúde do consumidor configurando infração sanitária

 

A apresentação dos dados de estabilidade, exigida no ato da regularização do produto ou pela 

autoridade sanitária quando das inspeções, está estabelecida na legislação vigente. Além disso, deve 

ser cumprido o estabelecido no Termo de Responsabilidade firmado pela empresa, por meio do qual 

declara possuir dados que atestam a eficácia e a segurança do seu produto.

 

Pelo perfil de estabilidade de um produto é possível avaliar seu desempenho, segurança e eficácia, 

além de sua aceitação pelo consumidor.

 

O estudo de estabilidade fornece indicações sobre o comportamento do produto, em determinado 

intervalo de tempo, frente a condições ambientais a que possa ser submetido, desde a fabricação até

o  término da validade. 

 

Segundo Monografia da International Federation of Societies of Cosmetic Chemists – IFSCC o teste 

de estabilidade é considerado um procedimento preditivo, baseado em dados obtidos de produtos 

armazenados em condições que visam a acelerar alterações passíveis de ocorrer nas condições de 

mercado. Como em todo procedimento preditivo os resultados não são absolutos, mas têm 

probabilidade de sucesso. 

 

As informações constantes neste trabalho, sem a intenção de esgotar o tema proposto, objetivam 

sugerir aos profissionais orientações para a investigação dos procedimentos envolvidos na qualidade,

relacionados aos estudos de estabilidade de produtos cosméticos, de acordo com as necessidades de 

cada empresa.

 

Em função das características de competitividade existentes entre as empresas do setor, e da

 inexistência de normas específicas padronizadas para a indústria cosmética, os profissionais ligados 

à área têm empregado referências sobre estudos de estabilidade utilizadas pela indústria farmacêutica, 

com as adaptações necessárias.

 

Finalmente, para que haja entendimento das diretrizes propostas neste Guia, todas as definições, 

especificações analíticas  e ou instruções de maneira geral, que visem ao estudo da estabilidade de 

produtos cosméticos devem considerar sua adequação às características particulares de cada 

empresa. 

 

 

2 OBJETIVO

 

O objetivo deste Guia é apresentar uma abordagem racional e recomendações para a avaliação da 

estabilidade de produtos cosméticos enfatizando a importância deste estudo, que se inicia na fase de 

desenvolvimento e deve acompanhar o produto pelo menos até o término do prazo estimado para

a sua validade.

 

3 CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE ESTABILIDADE

 

O estudo da estabilidade de produtos cosméticos fornece informações que indicam o grau de 

estabilidade relativa de um produto nas variadas condições a que possa estar sujeito desde 

sua fabricação até o término de sua validade.

 

Essa estabilidade é relativa, pois varia com o tempo e em função de fatores que aceleram ou 

retardam alterações nos parâmetros do produto. Modificações dentro de limites determinados

podem não configurar motivo para reprovar o produto.

O estudo da estabilidade de produtos cosméticos contribui para:

  • orientar o desenvolvimento da formulação e do material de acondicionamento adequado;

  • fornecer subsídios para o aperfeiçoamento das formulações;

  • estimar o prazo de validade e fornecer informações para a sua confirmação;

  • auxiliar no monitoramento da estabilidade organoléptica, físico-química e microbiológica, 

O referido monitoramento estará produzindo informações sobre a confiabilidade e segurança dos

 produtos. 

 

 

 3.1   FATORES QUE INFLUENCIAM A ESTABILIDADE

 

Cada componente, ativo ou não, pode afetar a estabilidade de um produto. Variáveis relacionadas 

à formulação, ao processo de fabricação,  ao material de acondicionamento e às condições 

ambientais e de transporte podem influenciar na estabilidade do produto. Conforme a origem, 

as alterações podem ser classificadas como extrínsecas, quando determinadas por fatores externos;

ou intrínsecas, quando determinadas por fatores inerentes à formulação.

3.1.1 FATORES EXTRÍNSECOS

 

Referem-se a fatores externos aos quais o produto está exposto, tais como:

 

a) Tempo

O envelhecimento do produto pode levar a alterações nas características organolépticas, 

físico-químicas, microbiológicas e toxicológicas.

 

b) Temperatura

Temperaturas elevadas aceleram reações físico-químicas e químicas, ocasionando alterações em: 

atividade de componentes, viscosidade, aspecto, cor e odor do produto.

Baixas temperaturas aceleram possíveis alterações físicas como turvação, precipitação, cristalização.

Problemas gerados, em função de temperaturas elevadas, ou muito baixas, podem ser decorrentes 

também de  não-conformidades no processo de fabricação, armazenamento ou transporte do

produto.

 

c) Luz e Oxigênio

A luz ultravioleta, juntamente com o oxigênio, origina a formação de radicais livres e desencadeia 

reações de óxido-redução.

Os produtos sensíveis à ação da luz devem ser acondicionados ao abrigo dela, em frascos opacos 

ou escuros e devem ser adicionadas substâncias antioxidantes na formulação, a fim de retardar 

o processo oxidativo.

 

d) Umidade

Este fator afeta principalmente as formas cosméticas sólidas como talco, sabonete em barra, sombra, 

sais de banho, entre outras. Podem ocorrer alterações no aspecto físico do produto, tornando-o 

amolecido, pegajoso, ou modificando peso ou volume, como também contaminação microbiológica.

 

e) Material de Acondicionamento

Os materiais utilizados para o acondicionamento dos produtos cosméticos, como vidro, papel, metal

 e plástico podem influenciar na estabilidade. Devem ser efetuados testes de compatibilidade entre o

material de acondicionamento e a formulação, a fim de determinar a melhor relação entre eles.

 

f) Microrganismos

Os produtos cosméticos mais suscetíveis à contaminação são os que apresentam água em sua 

formulação como emulsões, géis, suspensões ou soluções.

A utilização de sistemas conservantes adequados e validados (teste de desafio do sistema conservante 

- Challenge Test), assim como o cumprimento das Boas Práticas de Fabricação são necessários para 

a conservação adequada das formulações.

 

g) Vibração

Vibração, durante o transporte, pode afetar a estabilidade das formulações, acarretando separação 

de fases de emulsões, compactação de suspensões, alteração da viscosidade dentre outros.

 

Um fator agravante do efeito da vibração é a alteração da temperatura durante o transporte do 

produto.

 

3.1.2  FATORES INTRÍNSECOS

São fatores relacionados à própria natureza das formulações e sobretudo à interação de seus 

ingredientes entre si  e ou com o material de acondicionamento. 

Resultam em incompatibilidades de natureza física ou química que podem, ou não, ser visualizadas

pelo consumidor.

 

Incompatibilidade Física

Ocorrem alterações, no aspecto físico da formulação, observadas por: precipitação, separação de 

fases, cristalização, formação de gretas, entre outras.

 

Incompatibilidade Química

 

a) pH

Devem-se compatibilizar três diferentes aspectos relacionados ao valor de pH: estabilidade dos

ingredientes da formulação, eficácia e segurança do produto.

 

b) Reações de Óxido-Redução

Ocorrem processos de oxidação ou redução levando a alterações da atividade das substâncias

ativas, das características organolépticas e físicas das formulações.

 

c) Reações de Hidrólise

Acontecem na presença da água, sendo mais sensíveis substâncias com funções éster e amida. 

Quanto mais elevado o teor de água da formulação, mais provável a ocorrência desse tipo de reação.

 

d) Interação entre Ingredientes da Formulação

São reações químicas indesejáveis que podem ocorrer entre ingredientes da formulação anulando ou 

alterando sua atividade.

 

e) Interação entre  Ingredientes da Formulação e o Material de Acondicionamento

São alterações químicas que podem acarretar modificação em nível físico ou químico entre os

componentes do material de acondicionamento e os ingredientes da formulação.

 

 

3.2  ASPECTOS CONSIDERADOS NA ESTABILIDADE

Físicos: devem ser conservadas as propriedades físicas originais como aspecto, cor, odor, 

uniformidade, dentre outras;

 

Químicos: devem ser mantidos dentro dos limites especificados a integridade da estrutura química, 

o teor de ingredientes e outros parâmetros;

 

Microbiológicos: devem ser conservadas as características microbiológicas, conforme os requisitos

especificados. O cumprimento das Boas Práticas de Fabricação e os sistemas conservantes 

utilizados na formulação podem garantir estas características.

 

Além desses aspectos é necessário considerar também a manutenção das características do produto 

quanto à:

Funcionalidade: os atributos do produto devem ser mantidos sem alterações quanto ao efeito inicial 

proposto.

Segurança: não devem ocorrer alterações significativas que influenciem na segurança de uso do 

produto. 

 

 

3.3  QUANDO REALIZAR OS TESTES DE ESTABILIDADE

 

Durante o desenvolvimento de novas formulações e de lotes-piloto de laboratório e de fábrica.

Quando ocorrerem mudanças significativas no processo de fabricação.

Para validar novos equipamentos ou processo produtivo.

Quando houver mudanças significativas nas matérias-primas do produto.

Quando ocorrer mudança significativa no material de acondicionamento que entra em contato com o

produto.

 

 

3.4  PRINCÍPIOS DOS TESTES DE ESTABILIDADE

 

Os testes devem ser conduzidos sob condições que permitam fornecer informações sobre a 

estabilidade do produto em menos tempo possível. Para isso, amostras devem ser armazenadas 

em condições que acelerem mudanças passíveis de ocorrer durante o prazo de validade. 

 

Deve-se estar atento para essas condições não serem tão extremas que, em vez de acelerarem 

o envelhecimento, provoquem alterações que não ocorreriam no mercado.

A seqüência sugerida de estudos (preliminares, acelerados e de prateleira) tem por objetivo avaliar

a formulação em etapas, buscando indícios que levem a conclusões sobre sua estabilidade.

 

3.5  ACONDICIONAMENTO DAS AMOSTRAS

 

Recomenda-se que as amostras para avaliação da estabilidade sejam acondicionadas em frasco de

vidro neutro, transparente, com tampa que garanta uma boa vedação evitando perda de gases ou

vapor para o meio.  A quantidade de produto deve ser suficiente para as avaliações necessárias. 

 

Se houver incompatibilidade conhecida entre componentes da formulação e o vidro, o formulador

deve selecionar outro material de acondicionamento. O emprego de outros materiais fica a critério do 

formulador, dependendo de seus conhecimentos sobre a formulação e os materiais de 

acondicionamento.

 

Deve-se evitar a incorporação de ar no produto, durante o envase no recipiente de teste. É importante 

não completar o volume total da embalagem permitindo um espaço vazio (head space) de 

aproximadamente um terço da capacidade do frasco para possíveis trocas gasosas.

 

Pode-se utilizar, em paralelo ao vidro neutro, o material de acondicionamento final; antecipando-se,

assim, a avaliação da compatibilidade entre a formulação e a embalagem. 

 

fonte: www.anvisa.gov.br