Texto da entrevista sobre Aura Digital
e Objetos Inteligentes
na Globo News Conta Corrente Especial
Dr. Jean Paul Jacob (cientista – IBM)
Professor de Informática do Departamento de Eng. Elétrica e Ciência
Computacional da Universidade de Berkeley na Califórnia, EUA, brasileiro
formado pelo ITA.
Vive há 35 anos no exterior.
Gerente do Centro de Pesquisas da IBM; pago para pensar,
e projetar o futuro a partir do presente e do passado.
Como é o mundo da aura digital ?
O ser humano tem necessidade de se comunicar com outros seres humanos, a
qualquer hora e de qualquer lugar (telefone celular). O próximo passo será de nos comunicarmos com objetos, e objetos se comunicarem entre si para
facilitarem as nossas vidas.
A comunicação não pede inteligência, como objeto se comunica ?
Comunicação requer uma série de pré-requisitos, mas a comunicação
entre nós e objeto terá esses pré-requisitos em nós mesmos.
Comunicação entre nós e objetos é por exemplo chegar perto de uma maçaneta
e ela saber quem é você através da aura digital e a porta ser aberta.
Comunicação com objeto é você chegar num telefone público, tocar no
telefone, ele sabe quem você é, não precisa de ficha nem cartão,
apenas a sua conta é debitada após a ligação.
O que é essa aura digital ?
Qualquer coisa que permita que você se identifique em objetos. Pode ser
um cartão que tem um chip e que hoje é usado, ele identifica quem você
é, pode ser a impressão digital que você deixa em uma máquina que sabe
quem você é. Eu acredito que no futuro nós não teremos que tirar
fisicamente algo do bolso ou tocar alguma coisa, nós apenas nos
aproximamos.
A aura digital é uma emissão que o corpo tem que permite que ao você se
aproximar de uma máquina ela saiba quem você é, e responda de acordo
com suas necessidades.
Não precisamos de fios e cabos para transmitir informações, pois o
corpo humano é um excelente condutor de eletricidade. Nós conduzimos
eletricidade facilmente, então porque não colocar um computador qualquer
que seja ele num chip no sapato, na carteira, no relógio e deixar que seu
corpo conduza o sinal que ele está emitindo para maçaneta, para o
terminal bancário, para o telefone, etc.
A que distância nós estamos disso ?
Do poder acontecer questão de 3 a 5 anos, do realmente acontecer, talvez
nunca. Se nós pensarmos tecnologicamente nós iríamos a cenários ridículos,
por exemplo hoje nós fazemos chips que tem um laboratório químico
neles, isso é para que médicos no campo poderem imediatamente fazerem
uma análise química de um paciente. Uma fábrica de privadas pegou esse
chip para analisar “excrementos” que transmitiria os dados
imediatamente a um computador do médico que constantemente analisaria
para ver se existe algum problema com o paciente, etc. A tecnologia
permite isso. Máquinas se comunicando entre si são cenários que nos
levam ao absurdo, porque o ser humano quer Ter um pouco de criatividade,
então é difícil nós fazermos previsões tecnológicas.
As previsões tecnológicas; o que a tecnologia pode fazer, o que é factível
hoje fazermos em nossos laboratórios talvez não seja a realidade de
amanhã. Tem coisas que não pegam. Telefone com vídeo por exemplo não
pegou.
É difícil nos sabermos o que pega pois existem fatores sociais,
psicológicos que nós não sabemos. Eu pergunto: quanto você quer ser
ajudada por máquinas e pela tecnologia ? Será que o homem pode barrar
esse avanço da tecnologia ? Essa transformação do mundo é irreversível,
as pessoas têm que se preparar para esse mundo novo ?
A substituição das coisas físicas pelo digital (eletrônico), essa
mudança é irreversível, vai acontecer. Coisas físicas, o dinheiro ou
um outro modelo qualquer, pelo digital vai acontecer. Uma operação de
compra por exemplo muda completamente. Num supermercado os códigos de
barra seriam substituídos por um pequeno chip que identifica o produto e
o preço, esse chip não tem energia própria mas ele é energizado por rádio
frequência ou por micro-ondas, então ao sair do supermercado a porta está
emitindo um feixe de microondas que lê o conteúdo que está se levando
numa tela de cristal líquido, ao mesmo tempo sua aura digital vai dizer
quem você é, e debita-se a sua conta.
O toque do dedo que vai poder transmitir informações. Como é que vai
ser essa comunicação?
Em qualquer lugar do seu corpo que você tenha informações armazenadas
num chip ou disco, essas informações podem ser transmitidas através do
corpo. Então ao tocar com o dedo em qualquer objeto ou em outra pessoa
você transmite essa informação. Por exemplo eu tenho meu cartão de
visitas armazenado em algum chip que esteja no meu corpo, ao apertar a mão
de outra pessoa irá transmitir informações referentes que a outra
pessoa irá armazenar no chip dela.
O futuro também não é muita gente desempregada ?
Hoje em dia novos empregos estão sendo criados numa razão muito
maior dos empregos que estão desaparecendo. E haverá muitos empregos na
área da busca de informações. As pessoas que souberem usar o computador
para encontrar informação terão empregos. Organizar as informações,
encontrar aquilo que cada pessoa quer será um grande emprego, o número
de firmas a aparecer nesta área é extraordinário.
Ainda é preciso o homem controlar a máquina, esta fronteira não vai
se derrubar ?
Nunca, uma máquina pode parecer inteligente num contexto muito limitado.
A máquina é limitada, não tem inteligência de seres humanos. Toda
tecnologia é dominada pelos seres humanos. A inteligência nós podemos só
parcialmente passar a uma máquina.
Uma máquina pode se reproduzir ?
Pode, porque qualquer objeto tem essa capacidade de entender-se a si
mesmo, mas o ser humano só pode se reproduzir por outro ser humano, a máquina
não pode se igualar ao homem. Uma máquina só pode reproduzir aquilo que
nós sabemos explicar e recriar.
E as telas, vai chegar um momento que nós teremos uma tela só para
tudo ?
A tecnologia já existe, chama-se cristal líquido. O computador e a
televisão terão a mesma tela, na parede o seu quadro cuja moldura está
toda a circuitagem que transformará esse quadro numa televisão, num
computador ou mesmo num quadro eletrônico, onde as “pinturas” se
modificam a cada dia.
Comunicar-se com as paredes já é possível. Foi inaugurado recentemente
um prédio na IBM onde as paredes entendem e obedecem.
Esse conceito chama-se “o prédio ao computador” , e seria criar uma
tela de cristal líquido que seria um tablete eletrônico, que não tem
memória nem poder computacional e você agora começa a receber e
transmitir informações através das paredes.
A tela transmite um pedido e na parede existe um receptor de infravermelho
que recebe e manda a informação, que depois será mandada de volta para
você. Toda computação é feita pelo prédio.
Jornal do Brasil Online, 24 Junho 1997
O inventor do futuro
Jean Paul Jacob, gerente de pesquisas da IBM, explica como a
tecnologia vai mudar a sua vida
TERESA KARABTCHEVSKY
Cabeça de Einstein, corpo de Pavarotti, lábia de Jô Soares. Assim é
Jean Paul Jacob, o sorridente gerente de pesquisas da IBM, que passa a
vida criando cenários futuristas e deixa qualquer alérgico a
computadores convencido de que, em muito pouco tempo, essas máquinas serão
mais amigáveis do que aquele velho companheiro de infância.
Paulista, apesar do nome francês, este apreciador de caipirinha
"de cachaça" estudou Engenharia Eletrônica no Instituto Tecnológico
da Aeronáutica (ITA), em 1960. De lá para cá, acumulou alguns PHDs.
Inventar o futuro faz parte do seu trabalho, mas é também sua maior
diversão. "Não tenho hobbies, meu prazer está em fazer previsões.
Vou assistir Jurassic Park e saio imaginando como eles fizeram
aquilo, que equipamentos e programas foram usados", diz.
Em uma de suas primeiras adivinhações, decretou: "vou passar a
vida viajando." Aterrisou na França, onde morou um ano. Depois
passou pela Holanda e pela Suécia até despejar sua boemia na Califórnia,
onde vive há 32 anos, comodamente instalado num apartamento em frente à
Baía de São Francisco.
Enquanto vislumbra um mundo em que cartões de
apresentação serão trocados num simples aperto de mão. Isso será possível
graças a um chip embutido na sola do sapato de executivos e donas de
casa. "Eles vão passar o dia pisando nessas informações, que
depois serão transferidas para o computador", prevê. Como isso será
possível? "Nós vamos ter uma aura digital. Vamos botar um disco rígido
e um microprocessador na sola dos calçados. Falta a bateria? Não, o ser
humano é um excelente condutor de eletricidade", vibra.
Pelo mesmo princípio, as donas de casa não precisarão mais recorrer
às listas de compras. Um chip, acoplado à despensa, informará os
mantimentos em falta e os dados serão registrados no sapato da madame. Ao
passar diante das prateleiras do mercado, painéis luminosos avisarão que
o produto deve ser comprado. Ah, aquela história de esvaziar o carrinho
no caixa também vai acabar. As compras serão registradas automaticamente
ao passarem por uma porta.
Nas visões criadas por Jean Paul, os automóveis terão transponders
grudados no pára-choque que darão informações sobre as condições
das estradas ao motorista. Seu entusiasmo pelos avanços tecnológicos traça
um cenário ainda mais divertido: "teremos telas de cristal líquido
emolduradas e poderemos escolher quadros de impressionistas para decorar a
casa num jantar. Se o convidado preferir telas de Di Cavalcanti é só
apertar um botão e trocar pela obra do brasileiro", ilustra.
Usando imagens de um planeta deliciosamente futurista, Jean Paul
extrapola como ninguém algumas tecnologias que já existem. Um modelo
experimental da japonesa Mitsubishi identifica, através de sensores,
desvios no comportamento do motorista. Na Suécia, alguns modelos da Volvo
saem de fábrica com transponders no bocal do tanque de gasolina,
para que os frentistas-robôs dos postos possam identificá-los evitando
que o cliente precise sair do carro naquele frio de rachar.
Parte do show deste sessentão está em falar sobre o que não
conseguiu antever. Seu exemplo mais comum é a explosão do telefone
celular, dos notebooks, dos CDs e da Web, todos frutos da necessidade do
ser humano em se comunicar. Ele também comenta alguns erros de percurso
da indústria de informática. O videofone é um deles. "Não
pegou." Outro que não deu muito Ibope até agora foi o
reconhecimento de voz. "Computadores com comando de voz só serão
necessários para profissionais que usam as mãos, como os radiologistas,
e deficientes físicos. Ficaria muito estranho eu dar ordens para o meu
notebook no meio de um ônibus", justifica. "Também é difícil
o reconhecimento do discurso", pondera.
Mas o mesmo time que toma alguns frangos, vez por outra faz golaços.
Dois dos 2.500 pesquisadores que trabalham com Jean Paul no centro de
pesquisas da IBM, em Almadén, na Califórnia, conseguiram teletransportar
elétrons. A experiência não é, como muitos pensam, o primeiro passo
para o teletransporte humano, mas trará progressos à medicina.
adaptado do Jornal do Brasil Online
Terça-feira, 24 de junho de 1997
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