Ethos e Ética

Ethos é um termo genérico, que designa o caráter cultural e social de um grupo ou sociedade. De uso bastante antigo, significando em grego hábito ou caráter – ética é um termo intimamente relacionado. Passou a designar uma espécie de síntese dos costumes de um povo. A natureza de tal síntese depende dos objetivos e das categorias do observador.

Para W.G. Sumner, ethos designava "... a totalidade dos traços característicos pelos quais um grupo se individualiza e se diferencia dos outros...". Assim Sumner caracterizava o Ethos chinês como "industrioso e materialista", contrastando com o ethos "belicoso" da cultura japonesa. Ambas as descrições eram impressionistas e subjetivas.

O uso corrente tornou-se mais sofisticado conceptualmente, embora não se possa dizer que se tenha tornado menos subjetivo. O observador tenta conceituar o ethos, postulando alguns estados subliminares de motivação, alguns valores, premissas implícitas ou tendências adquiridas. Procede a uma listagem desse material, e o comportamento que parece derivar dele, ou demonstrá-lo, é citado a título de ilustração. Ethos pode assim incluir temas culturais, padrões culturais e valores .

Ética é a ciência dos costumes ou dos atos humanos, e seu objeto é a moralidade, entendendo-se por moralidade a caracterização desses mesmos atos como bem ou mal. O dever, em geral, é objeto da ética.

O termo é usado normalmente em seu sentido próprio, i.e., como ciência dos costumes, abrangendo os diferentes campos da atividade humana. Normalmente é sinônimo de moral.

 

Por um novo ethos

Procura-se uma nova ética. A velha está se aposentando. Vem do século XVII e, portanto, não serve mais. Caduca, tem dificuldades para responder prontamente às questões da nova genética, da biotecnologia, e das novas tecnologias de informação e comunicação. Vagarosa, foi atropelada pelos avanços da ciência e esgarçada pelo atrito com relativismo cultural.

O homem que estudava plantas e animais agora inventa novos organismos que a própria natureza desconhece. Ousado, propõe a criação de uma nova "cobaia", cruzamento de macaco e homem, para testar vacinas. Como será esse ser? Racional? Irracional?

E vai além: interfere no processo de criação. Faz experiências com embriões humanos e já pode escolher a cor dos olhos e o sexo de seus descendentes. Esmiúça o próprio código genético e tenta patenteá-lo. É lícito?

Alguma vezes, o domínio do homem sobre a natureza se mostrou perverso. A tecnologia, aclamada como a solução para todos os problemas da humanidade, da fome à miséria, gerou neste século montanhas de detritos, desigualdade econômica, devastação da floresta e etc. Hoje, ela vive sua crise. A visão contábil da natureza agoniza, enquanto o homem, ex-senhor do universo, vai humildemente se reagrupando ao ecossistema.

Patentes, fraudes científicas, relativismo cultural – cortar a mão de um ladrão ou estripar o clitóris de uma menina são atos culturais ou um grave desrespeito aos direitos humanos? -, uso de animais em experimentação etc. Crescem os conhecimentos, aumentam as questões éticas (em grau e número). Cabe à sociedade buscar as respostas.

Seja qual for o perfil do novo paradigma ético que começa a se esboçar, o mais importante é que ele leve a uma nova postura ético-individual, a uma atitude crítico-reflexiva, em todas as atividades humanas. A busca desse novo ethos pode não ser a solução final, mas, com certeza, já é um começo.

 

Ética e progresso científico

Embora crie fantástica perspectiva de vida ao futuro da humanidade, a manipulação de material genético humano abre amplo e polêmico leque de questões éticas. O médico e geneticista Francisco Salzano, da UFRS, consultor da Organização Mundial da Saúde para assuntos de genética humana, defende que a conduta dos especialistas na área seja norteada sobretudo pelo respeito à autodeterminação e desejo das pessoas.

Quais as principais questões éticas hoje envolvidas no aconselhamento genético?

Até recentemente, o aconselhamento genético limitava-se basicamente à informação e ao aconselhamento de pessoas que tinham doença genética na família. Com o significativo progresso registrado na área, surgiram questões que nem se cogitava examinar, como triagens populacionais de recém–nascidos e suas respectivas implicações .

Se uma criança, ao nascer, é identificada como portadora de determinada característica hereditária, que implicações essa informação pode trazer ao longo de sua vida? Outro ponto polêmico refere-se à identificação de fatores genéticos em indivíduos assintomáticos. Atualmente, já foi identificado um gene num cromossomo específico que nos permite prever que determinada pessoa desenvolverá doença degenerativa do sistema nervoso em 15 ou 20 anos .Surge aí uma dúvida : talvez a pessoa não queira saber que está condenada a ter uma doença graveno futuro.

Como o senhor avalia a possibilidade que a genética abre a empresas de revelar o mapa genômico de seus empregados?

Essa é uma questão delicada. Existem certas construções genéticas que, sem dúvida, predispõem desfavoravelmente uma pessoa a um determinado ambiente de trabalho. Um indivíduo com genótipo que determina predisposição para desenvolver enfizema pulmonar, por exemplo, seria desaconselhado a trabalhar em ambientes que liberem substâncias prejudiciais a seu pulmão. Mas a quem deve ser fornecida essa informação : ao indivíduo sujeito à doença ou à empresa onde ele trabalha ou se candidata ao trabalho ?

Se o exame é feito quando o indivíduo já está empregado, não é aconselhável que essa informação seja divulgada sem critério. Idealmente, esses testes deveriam ser feitos independentemente do interesse empresarial. Se a pessoa, apesar de uma condição desfavorável, opta por se empregar, o risco deve ser dela . Mas se isso pode significar prejuízos econômicos para a empresa e para o estado, o direito individual estaria se sobrepondo indevidamente ao coletivo.

Quais são os riscos e benefícios envolvidos na reprodução humana?

Atualmente, no que diz respeito à reprodução, quase tudo pode ser feito. Pode-se retirar o núcleo de determinada célula reprodutora e substituí-lo por outro, estabelecendo com isso uma clonagem, isto é, o desenvolvimento de um indivíduo a partir de uma única célula.

Por esse processo, torna-se possível gerar centenas de indivíduos com a mesma característica genética. Mas é preciso ressalvar que a clonagem pode ser usada para o bem ou para o mal. Segundo informação não confirmada oficialmente, um centro de primatologia norte- americano teria realizado uma clonagem de gene humano em macacos, para produzir um ser híbrido, meio homem, meio macaco, especificamente destinado ao trabalho doméstico. A técnica consiste em destruir o núcleo original de um óvulo de chipanzé e nele introduzir o citoplasma humano. Esse tipo de experiência é uma perigosa ameaça à espécie humana e não é aprovada por nenhum código de ética. Mas a técnica pode trazer beneficios. Uma pessoa consciente de sua importância social, por exemplo, que fosse de uma doença grave, teria a chance de tentar se reproduzir através do processo de clonagem, gerando um gêmeo idêntico, pois transmitiria a ele todos os seus genes e não apenas a metade, como acontece na transmissão clássica, de pais para filhos.