Tópicos Fundamentais de Inteligência (KITs) e

Questões Fundamentais de Inteligência (KIQs)


Mário Andreuzza*

Prof. de Inteligência Estratégica 


[INTRODUÇÃO]

A informação é um bem tão valioso que é considerado um tipo de ativo intangível de importância estratégica para a maioria das organizações. Decide melhor quem tem mais ou a melhor informação, ou seja, aquelas informações que efetivamente fazem a diferença ao negócio, gerando conclusões objetivas e que permitem ao gestor empreender ações focadas em resultados.

Hoje o problema não é a falta de informação, mas a qualidade da informação necessária para subsidiar as decisões estratégicas das organizações. Há um volume muito grande de dados e muitas vezes estes dados são replicados em várias fontes, o que dificulta o trabalho dos coletores e analistas. Há dados não confiáveis, muita desinformação e dificuldade para recuperar as informações produzidas.

Outro aspecto que dificulta o trabalho das Unidades de Inteligência é o tempo necessário para produzir o conhecimento desejado pelo decisor estratégico. A velocidade dos acontecimentos e a transmissão em tempo real das informações em qualquer parte do mundo faz com que, em alguns casos, a informação produzida já não seja mais oportuna. 

Tempo e qualidade da informação, portanto, são duas condicionantes que tiram o sono dos profissionais de Inteligência encarregados pela produção do conhecimento na organização. 

Didaticamente, o ciclo de Inteligência pressupõe 04 fases, a saber: (1)a orientação feita pelo decisor estratégico para quem vai produzir a informação, (2) a produção propriamente dita, (3) a utilização do conhecimento produzido e (4) a avaliação da inteligência disponibilizada e do seu processo de produção.

Para produzir o conhecimento adequado, além de técnicas e metodologia, faz-se necessário entender detalhadamente o que o decisor estratégico deseja. Muito trabalho duro tem sido pouco utilizado porque a orientação do usuário final não foi precisa. Em alguns casos, nem foi feita. É fundamental captar o que realmente o decisor estratégico necessita. 

Orientações genéricas geram, normalmente, informações igualmente genéricas e de pouco valor estratégico.

[KEY INTELLIGENCE TOPICS]

Uma das técnicas utilizadas para orientar a produção do conhecimento é a construção de Tópicos Fundamentais de Inteligência, expressão traduzida de “Key Intelligence Topics” simplificadamente chamado de KITs. Na verdade, os KITs são os aspectos essenciais da informação a ser produzida.

Os KITs são uma adaptação dos Tópicos Nacionais de Inteligência (NITs) desenvolvidos por Jan Herring quando deixou o governo norte americano e foi trabalhar na Motorola nos anos 80 do século passado. Mais tarde, Herring se tornou consultor e aplicou esse processo na NutraSweet, Southwestern Bell, Texas Instruments, Ford Motor Credit e Rockwell Automotive Design.

Em seu artigo Key Intelligence Topics: a process to identify and define intelligence needs, de 1999, Herring afirma que os KITs, quando definidos logo no início do ciclo de Inteligência, “proporcionam o foco e a prioridade necessários à condução de operações de inteligência eficazes”.

Os KITs podem ser expressos em perguntas ou ser uma frase que sintetiza uma idéia força da informação que se deseja . Por exemplo, se estamos produzindo um conhecimento sobre uma nova tecnologia, poderíamos ter alguns KITs como: origem da tecnologia, proprietários da patente, locais ou empresas que já utilizaram, custos de aquisição e implementação, quais processos serão impactados por ela, etc...

Normalmente, os KITs são formulados pelo usuário final da informação. Nem sempre o decisor estratégico entrega uma relação de “pedidos” ao analista de inteligência. Cabe a este ou ao Gestor de Inteligência, nos poucos minutos que dispuser durante entrevista, extrair quais são suas reais necessidades de inteligência. Sem que sejam definidas, e bem entendidas, quais são tais necessidades informacionais fica extremamente difícil produzir um conhecimento que possa ser efetivamente utilizado pelo usuário final.

[KEY INTELLIGENCE QUESTIONS]

De posse dos KITs os analistas elaboram os KIQs, ou seja, as Questões Fundamentais de Inteligência, igualmente traduzido de “Key Intelligence Questions”. Ao elaborar os KIQs, o analista sistematiza seu raciocínio, orienta a coleta dos dados e procura levantar todos os aspectos relacionados ao respectivo KIT. Normalmente, os KIQs são expressos em perguntas e quanto maior for o número de perguntas, maior será a possibilidade de se ter uma informação mais completa.

Se formos utilizar o KIT “custos de aquisição e implementação” da nova tecnologia do exemplo anterior, poderíamos ter os seguintes KIQs: 

  • Qual é o custo de aquisição da tecnologia? 
  • Qual o custo dos softwares necessários? 
  • Qual o custo dos hardwares? 
  • Há custos com treinamento?
  • Quanto tempo é necessário para a implementação da tecnologia?
  • Quais os benefícios que a tecnologia pode trazer? 
  • O que isto vai impactar nos custos?
  • Enfim, há muitas outras perguntas. 

O uso de KITs e KIQs é uma metodologia que ajuda o processo de levantamento das necessidades informacionais. É preciso ficar muito claro qual é a necessidade de Inteligência, pois isto pode ser a diferença entre a boa e a excelente informação, que só serão úteis se chegarem a tempo às mãos de quem decide.

Tempo e qualidade são aspectos que devem estar presentes na cabeça de todo profissional de Inteligência. Robert Flynn, ex-CEO e presidente do conselho de administração da NutraSweet, dizia: “os vencedores serão aqueles que sabem mais, sabem em primeira mão, e convertem o conhecimento em ação com mais rapidez”. Os KITs e KIQs podem ser excelentes aliados para isto.