BASES DA ANÁLISE PROSPECTIVA 

Visão de Futuro

 

Construir o futuro, informar o presente!

Pensar, debater e modelar o futuro são atividades tão antigas quanto a própria existência do homem. Para se "desenhar" o futuro é preciso ir além daquilo que é conhecido, permitir a entrada de novas idéias e posicionamentos, compartilhar questões inquietantes e provocativas e, ainda, identificar alternativas que permitam construir o caminho da mudança. É preciso ousadia !

Uma grande variedade de métodos e técnicas de prospecção foram desenvolvidos a partir da década de 1950, objetivando formalizar procedimentos para estudos sistemáticos das tendências e fatos futuros.

Ao longo do tempo, porém, tais técnicas se mostraram insuficientes tendo em vista sua incapacidade de prever eventos absolutamente centrais para a dinâmica dos sistemas sociais contemporâneas: as previsões determinísticas do futuro são absolutamente absurdas; o futuro "se trabalha" em bases probabilísticas.

A prospecção ganha força a partir da segunda metade da década de 80, face às profundas mudanças de caráter político, econômico e tecnológico ocorridas no cenário mundial. A partir daí, os exercícios de prospecção se identificam com a tendência mundial de tratar os desafios colocados ao desenvolvimento e à tecnologia a partir de abordagens participativas,  “o futuro se constrói a partir do presente”.

A prospecção social e tecnológica, que tem despertado interesse em governos e empresas,  pode ser definida como um meio sistemático de mapear eventos sociais, científicos e tecnológicos capazes de influenciar no futuro, de forma significativa, atividades específicas, associadas à economia, tecnologia ou a sociedade como um todo. 

Diferentemente das atividades de previsão clássica, que se dedicam a antecipar um futuro suposto como único, os exercícios de prospecção são construídos a partir da premissa de que são vários os futuros possíveis, chamados cenários futuros múltiplos

Esses são tipicamente os casos em que as ações presentes alteram o futuro, como ocorre com a inovação tecnológica. Avanços tecnológicos futuros dependem de modo complexo e imprevisível de decisões tomadas no presente por um conjunto relativamente grande de agentes que atuam, de forma transversal, em várias áreas.

Os exercícios de prospecção funcionam como meio de atingir dois objetivos: 

1o.) Preparar os atores sociais em atividades específicas para aproveitar ou enfrentar oportunidades ou ameaças futuras.

2o.) Desencadear um processo de construção de um futuro desejável para indivíduos ou sistemas empresariais.

Esta abordagem busca conjugar esforços entre ações objetivamente bem definidas na construção coletiva de um futuro desejável.

OBS:- Cabe refletir, portanto, sobre a diferença entre cenários futuros possíveis, prováveis e desejáveis.

A importância de uma visão de futuro

As organizações [ sistemas empresariais] tentam, já há algumas décadas, incorporar a compreensão de futuro dentro de seus Processos de Planejamento, de modo a tomar, hoje, decisões que lhes permitam tirar o melhor partido  das oportunidades futuras como também antecipar e superar ameaças.

 A Análise Prospectiva [visão de futuro] é uma base sólida para a sustentabilidade da organização.

 É ela que vai permitir a compreensão e percepção, de forma sistemática, do comportamento de variáveis do ambiente organizacional,relevantes para a definição de rumos e estratégia institucionais.

UTILIZAÇÃO DA ANÁLISE PROSPECTIVA  PARA A CONSTRUÇÃO DE CENÁRIOS FUTUROS EM EMPRESAS DE MÉDIO PORTE

 
Lamounier Erthal Villela – Universidade Estácio de Sá

Sergio Wright Maia – Universidade Cândido Mendes

 

Denomina-se Análise Prospectiva Estratégica, segundo Michel GODET, a metodologia para elaboração de cenários de futuros e incertos, em sistemas complexos, considerando o peso dos eventos probabilísticos e a confrontação dos interesses dos atores sócio-econômicos envolvidos na problemática analisada.

O antigo instrumental quantitativo de previsão clássica do futuro dá mostras de que o paradigma cartesiano tornou-se incapaz de explicar a realidade  incerta, turbulenta e complexa dos dias atuais.

 A prospectiva visa avaliar o futuro para explicar o presente, sua postura é marcadamente pró-ativa. A prospectiva não encara o futuro apenas como prolongamento do passado, pois o futuro está aberto às ações de múltiplos atores que agem, hoje, em função dos seus projetos para o futuro.

 [Fatores que orientam a Análise Prospectiva]

  •  o aumento da competitividade empresarial,
  • a rapidez das mudanças sociais e tecnológicas,
  • a tendência de participação da sociedade nas decisões governamentais e empresariais,
  • as transformações climáticas e
  • a conscientização da necessidade de ações,

 [Análise Prospectiva no Meio Empresarial]

 Considerando-se que as empresas de médio porte estão em fase de crescimento constante e, deste modo, sempre disputando novos mercados, podemos por analogia, identificar que os acontecimentos ou os fatos novos na vida dessas empresas chegam, normalmente, em grande velocidade e a capacidade de resposta das empresas aos fatos novos constitui-se na maior parte da formulação estratégica.

 [Velocidade de Resposta]

 Velocidade de resposta torna-se, portanto o foco central das estratégias. A velocidade de resposta depende da antecipação aos eventos e, portanto, as empresas têm que antever os  problemas. É a própria existência da estratégia que sugere a necessidade da prospectiva, mais precisamente, é quando a estratégia deixa de ser artesanal ou emergente, passando a ser planejada, explicitada e estimulada, que a prospectiva passa a ser fundamental para a sua formulação.

 A utilização da análise prospectiva vem se difundido principalmente na Europa, empresas como: BASF, DaimlerChrysler, Èletricité de France, Elf, Renault, Schneider, Shell aplicam deste ferramental para a construção de cenários que embasam o planejamento estratégico.

 Da mesma forma as empresas médias começam a perceber a lógica do processo de planejamento baseado em cenários. Muitas delas resolvem construir seu próprio futuro a fim de se proteger das ameaças observadas no ambiente externo.

 Alguns conceitos úteis segundo Godet (1991, pag 68) devem ser analisados “a priori”como os primeiros passos para a compreensão do ambiente onde a empresa pretende prospectar:

 1- Invariante – Fenômeno que não se altera durante o horizonte temporal em estudo;

 2- Tendência Pesada- Movimento que afeta o fenômeno no longo prazo;

 3- Germes – Fatores de mudança, quase imperceptíveis no presente, porém portadores de futuro;

 4- Atores – Agentes desempenham um papel no sistema (pessoas, empresas, grupos, governos). São os atores que fazem as coisas acontecer;

 5- Estratégia, tática – Para onde os atores querem chegar, analisado a partir de suas ações e de seus comportamentos.

 6- Conflito – Resultante da confrontação de forças antagônicas, interesses dos atores, ou 
da tensão entre duas tendências. São os conflitos que em grande parte determinam a evolução da relação de força entre os atores.

 7- Acontecimento (evento) – acontecimento é a ocorrência de um evento, possível de ocorrer 
segundo a conjunção de forças de uma dada situação;  

8- Evento Aleatório, probabilidades subjetivas – este conceito se aplica a eventos sobre cuja 
realização passada ou futura só se possuem informações incompletas.. Nestes casos o 
máximo que poderemos ter são probabilidades subjetivas (intuições).

 
[OFICINAS DE BUSCA DO FUTURO]

 A análise destes conceitos contribui para a empresa delimitar o sistema estudado. Esta fase é considerada como fase exploratória ou de construção da base. 

Normalmente, nesta fase são constituídas as oficinas de prospectiva, onde a empresa busca o auto-conhecimento (variáveis internas e externas são avaliadas e criticadas), um animador deverá contribuir para quebrar verdades estabelecidas, preconceitos e paradigmas que não servem mais como norteador das ações empresariais.

 Seguido desta fase, a elaboração dos cenários, onde diversos instrumentos podem ser utilizados : Analise de jogo dos atores, método Delphi, análise morfológica, impactos cruzados etc. 

Estes instrumentos tem a finalidade de tornar os cenários mais objetivos, ou seja identificar os futuros possíveis. A partir destes futuros possíveis chega-se a escolha das opções estratégicas norteadoras do planejamento. O futuro passa então a ser a razão do presente para as ações empresariais, a visão se torna dinâmica, o futuro múltiplo e incerto requerendo consciência e postura pró-ativa. 

A metodologia de planejamento baseada em Cenários, proposto por Grumbach (1999), insere-se no processo de Planejamento Estratégico,  onde a responsabilidade essencial da Gestão Estratégica pode ser definida “como posicionar a empresa em seu ambiente de modo que garanta seu sucesso continuado e a coloque a salvo de eventuais surpresas”

Texto adaptado para os propósitos da disciplina Teoria Geral dos Sistemas.