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O Dia do Desassossego

“Há um cansaço da inteligência abstrata, e é o mais horroroso dos cansaços... É um peso da consciência do mundo...” Fernando Pessoa como Bernardo Soares   Livro do Desassossego

Era 2013, ano em que uma legião de desassossegados foi às ruas protestar contra o crescimento econômico anêmico, contra os males da inflação e contra a adoção de políticas públicas sem resultados. Tudo começou com um aumento de vinte centavos na passagem e descambou para um poço bem fundo de insatisfações.

Neste mesmo ano, eu participava, como ouvinte, da Festa Literária Internacional de Pernambuco (FLIPORTO), em Olinda. Lembro-me que, naquele memorável evento, testemunhei depoimentos da jornalista espanhola Pilar Del Rio sobre o convívio e seu amor pelo escritor José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, em 1998.

Em uma das sessões, ela reforçou que, em 2012, a Fundação José Saramago instituiu o dia 16 de novembro, data que o escritor completaria 90 anos, como o Dia do Desassossego. Saramago não escrevia por amor, escrevia por desassossego e dizia “Escrevo para desassossegar, não quero leitores conformados, passivos, resignados” e completava, “escrevo porque não gosto do mundo em que vivo”.

No livro “Ensaio da Cegueira”, escrito em 1995, em uma verdadeira manifestação de desassossego, Saramago comentou: “Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. É um livro brutal e violento…”

Percebe-se que a preocupação do autor em transferir para o leitor algo além das palavras envolvia um processo interior de catarse pelo sofrimento. A “cegueira branca”, uma epidemia de cegueira pastosa que, repentinamente, aflige uma cidade, aprofunda uma reflexão sobre o atual estado do mundo, que insistimos em não enxergar.

Um estado impregnado pelo materialismo desmedido e pelo consumismo desenfreado. Um estado que valoriza a superficialidade, remove em cada um a consciência da importância do meio ambiente e que, nas asas do capitalismo selvagem, coloca o lucro acima de tudo. A cegueira branca compromete também a inteligência abstrata, nos torna um peso da consciência do mundo e nos aproxima de uma crise sem precedentes.

Em diversos momentos da vida, Saramago enfatiza que somos seres pensantes e precisamos superar os impulsos desejantes. Destaca que falta filosofia na sociedade moderna e, neste sentido, corremos para adotar ou “vestir” novidades sem sequer avaliar significados e ameaças do qual são portadoras.

A verdade é que, cada vez mais, precisamos de seres humanos em estado de desassossego e preparados para manifestar, com racionalidade, a relevância de seus anseios. Seres capazes de entender os riscos do planeta com febre, sem se deixar levar pelo cansaço da inteligência abstrata. Que perigoso cansaço!

Os sinais deste cansaço chegam da Organização Mundial de Meteorologia (OMM) que, recentemente, na abertura da COP27, no Egito, alerta: “os oito anos de 2015 a 2022 serão, provavelmente, os mais quentes registrados” no planeta. Desassossegado, António Guterres, secretário geral da ONU destaca que as informações da OMM são uma “crônica do caos climático”.

No ano do centenário de José Saramago, no dia do desassossego, fica a seguinte reflexão: somos a consciência do mundo, nos desassossegamos ou será a escuridão.

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