Amizade, empatia, altruísmo e gratidão são sentimentos que caminham “de mãos dadas” e sustentam o nosso estilo de vida gregário. Com fronteiras conceituais muito próximas, estas emoções fortalecem relações interpessoais e têm sido largamente estudadas na Neurociência e na Psicologia Positiva.
Nesta época de celebrações natalinas e de momentos de confraternizações, com a chegada do novo ano, “falar” de amizade e empatia parece ser um gesto bastante oportuno.
Em termos gerais, a empatia pode ser considerada como a capacidade que temos de se identificar com o outro, de sentir o que ele sente, de querer o que ele quer e de aprender do modo que ele aprende. É considerada uma espécie de inteligência emocional com componentes cognitivas, associadas à compreensão da perspectiva psicológica do outro e com componentes afetivas relacionadas com as reações emocionais que vivenciamos ao observar a experiência alheia.
Estudos realizados na Austrália, em Queensland, Universidade Católica Australiana, revelam que jovens selecionam mais facilmente colegas empáticos como amigos do que os demais sem manifestações de empatia. Meninos com elevados níveis de empatia cognitiva conquistam, em quase duas vezes mais, a amizade das meninas. Há, portanto, uma correlação entre o nível de empatia manifestado e a capacidade de fazer amigos.
Em outro plano, ainda na Neurociência, o pesquisador Sukhvinder Obhi, da Universidade Wilfrid Laurier, Canadá (Ontário), revela que o poder, também, pode provocar mudanças no funcionamento do “sistema espelho” em nosso cérebro, atrofiando a empatia.
Novos estudos, neste “sistema espelho” e em outros grupos neuronais, estão confirmando, pouco a pouco, que o poder diminui todas as formas de empatia. Há muita sabedoria quando se diz que “o poder subiu à cabeça”. São pessoas que ascendendo em escalas mais elevadas de poder, progressivamente, perdem a capacidade de se relacionar, de forma saudável e interativa com o outro, embotando o sentimento de empatia.
Lá atrás, no século XVI, muito antes do termo “empatia” ser introduzido na Psicologia, o francês Michel de Montaigne (1533-1592) já tratava da amizade em seus Ensaios. Montaigne “falava” da amizade como “um verdadeiro encontro de almas que se procuram” e que asseguram o verdadeiro e legítimo transbordamento do afeto.
Acrescenta ainda que a amizade não acontece para a obtenção de vantagens ou interesses particulares e não é instalada através de obrigações sociais ou simpáticos gestos de hospitalidade. Para ele a amizade é uma harmonia de gostos e vontades que se instala, somente, entre amigos verdadeiros e leais, tudo sustentado por componentes espirituais cuja prática “apura a alma”.
Montaigne escreveu sobre a amizade verdadeira, em seus Ensaios, com conhecimento de causa. Viveu uma amizade intensa com um outro francês, Étienne de La Boétie, que ainda jovem se consagrou com a obra “Discurso sobre a Servidão Voluntária”, quase um panfleto.A amizade fraterna entre eles durou apenas 4 anos, quando a morte, prematuramente, roubou a presença de De La Boétie da vida de seu irmão Montaigne. Em síntese foram irmãos que se escolheram!
Na outra ponta, De La Boítie, trazendo uma luz sobre o real sentido da servidão voluntária e sobre os maus poderosos, destacou: “De fato, o tirano não ama, nunca amou. A amizade é um nome sagrado, uma coisa santa; só se dá entre pessoas do bem e só sobrevive pelo apreço mútuo ”… e, completo, não se baseia em favores e adulação.









