“Somos ondas do mesmo mar, folhas da mesma árvore e flores do mesmo jardim”
Sêneca (filósofo)
Viver em sociedade não é uma tarefa simples!
Aprofundar estudos e reflexões sobre a tolerância parece-me um gesto oportuno na medida em que, em escala global ou na vida cotidiana, constata-se um preocupante aumento da intolerância nos mais diversos matizes: político, religioso, racial, de gênero ou até em níveis mais sutis que envolvem o plano ideológico ou a diversidade de crenças e opiniões.
No cenário internacional, casos de intolerância podem ser muito bem exemplificados a partir de estados de guerra, em curso, devastando sociedades humanas de forma incompreensível. No plano do dia a dia, insanos relacionamentos têm sido cultivados entre adolescentes, fazendo do bullying uma prematura e às vezes perigosa manifestação da intolerância.
Uma esteira de outros exemplos sobre a falta de tolerância tem revelado a fragilidade dos laços humanos na modernidade. O escritor polonês Zygmunt Bauman, em sua obra “Amor Líquido”, dá significado ao apelo de “amar o próximo como a si mesmo”, como uma das condições fundamentais à prática da tolerância e à formação da sociedade civilizada.
A tolerância pode ser analisada sob dois aspectos: podemos praticar a tolerância negativa, aquela que nos faz aceitar erros e gestos de alguém apenas por motivos práticos. Nestes casos suporta-se o suposto equívoco ou os desacertos do outro por simples conveniência, já que o contrário poderia causar um problema maior.
Por outro lado, segundo Norberto Bobbio, a tolerância positiva instala-se na plena aceitação de opiniões diversas que, mesmo concorrendo entre si, são a garantia da liberdade e da oportunidade de expressão.
A tolerância positiva é condição determinante para o desenvolvimento humano e a harmonia social. E foi, a partir desta premissa que o diretor de cinema Jacob Bender, de origem judaica, morador de New York e vítima direta dos atentados de 11 de setembro de 2001, resolveu propagar a importância da tolerância para o mundo em seu documentário “Os Sábios de Córdoba”.
A viagem de reflexão de Bender iniciou-se em Córdoba, na Andaluzia, exemplo exótico de florescimento, harmonia e desenvolvimento humano naquela Espanha medieval, exatamente quando todo o resto da Europa mergulhava na privação das artes e do conhecimento, cenário típico da Idade Média.
O filme dá realce à cultura árabe que impregnou a região, valorizou a criatividade, as ciências e as artes, tendo a tolerância religiosa como base ao desenvolvimento social e humano. Ali, em Córdoba, muçulmanos, judeus e cristãos conviveram pacificamente, por quase 300 anos, a partir do século IX. A cidade, na época, foi uma das mais avançadas do mundo e se equiparava com Roma e Bizâncio no plano econômico, financeiro, político e cultural.
No documentário de Jacob Bender, é dado destaque aos sábios Averroes, de origem muçulmana e Maimônides, de origem judaica, que a partir da filosofia se colocaram contra qualquer forma de segregação religiosa.
Visitei Córdoba na semana santa, para mergulhar, também, no tema da tolerância. Entrava na cidade murada todas as manhãs pela porta de Almodóvar, onde está a estátua do filósofo Sêneca, também um cordobês.
É dele o pensamento: a natureza nos fez irmãos, somos feitos dos mesmos materiais e temos o mesmo destino.








